Teve uma época da minha vida em que eu vivia em torneios de xadrez.
Regionais, interestaduais, salas abafadas de escolas, mesas improvisadas… era eu, um relógio fazendo tic-tic-tic e um monte de gente talentosa do outro lado do tabuleiro.
Ganhei alguns campeonatos, perdi outros tantos. Mas, curiosamente, hoje eu lembro menos das vitórias e muito mais da sensação de sentar ali na frente de alguém que estava, exatamente como eu, tentando prever o futuro peça a peça.
Eu achava que aquele mundo pertencente ao meu passado ia ficar guardado numa gaveta. Mas não ficou.
Hoje, cada decisão que tomo — profissional ou pessoal — tem traços daquele garoto que passava horas anotando movimentos, repetindo partidas famosas e analisando erros que ninguém mais tinha percebido.
O xadrez foi meu primeiro professor de estratégia.
Ele me ensinou coisas que eu só fui entender anos depois.
Por exemplo:
1) Pensar algumas casas à frente não é sobre prever o futuro.
É sobre estar preparado para ele.
No xadrez, você nunca sabe qual peça o outro vai mover.
Mas você aprende a estar pronto para vários cenários ao mesmo tempo.
Hoje, isso é quase metade do meu trabalho: planejar caminhos que talvez nem aconteçam, mas que me tornam mais seguro quando algo foge do esperado.
2) Nem toda jogada boa é a melhor jogada.
Às vezes o movimento perfeito na técnica é péssimo para o momento.
Às vezes a solução simples resolve mais do que a brilhante.
Isso vale para negócios, para criatividade, para gestão, para vida.
3) Sacrifícios fazem parte do jogo.
Perder uma peça pode significar ganhar o tabuleiro.
O xadrez me ensinou que não dá para segurar tudo.
Que abrir mão não é fracasso.
Que existe força em renunciar a algo para conquistar outra coisa maior.
4) Quem joga olhando só para as peças esquece de olhar para o relógio.
Essa talvez seja a mais útil hoje.
Não adianta fazer dez planos perfeitos se você perde o timing.
A decisão certa tomada tarde demais vira a decisão errada.
5) E, no fim, a partida é sempre sua.
Mesmo com treinadores, estudos, livros, exemplos…
Chega uma hora em que só tem você ali, encarando o tabuleiro.
E isso me acompanha até hoje: responsabilidade, autonomia, coragem.
Quando penso na minha vida profissional — nas mudanças, nos desafios, nas transições, nos novos projetos — eu sempre volto para aquele tabuleiro.
Não porque eu ainda me veja como o campeão mirim de antigamente, mas porque sei que aquela versão de mim silenciosa, concentrada e estratégica continua aqui dentro.
A verdade é que o xadrez não ficou no passado.
Ele só mudou de cenário.
Hoje eu não movo mais torres ou bispos.
Mas sigo pensando adiante, avaliando riscos, observando padrões, ajustando caminhos e lembrando que cada decisão carrega mais possibilidades do que parece.
E, de certa forma, continuo jogando.
A diferença é que agora o tabuleiro é a vida.

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